África minha

Published on January 22, 2026 at 11:59 AM

Capítulo 1

Em todas as épocas há uma Karen Blixen.

Após a sua morte em 1962, já outra estava na forja, ainda criança, mas herdeira daquela mesma energia. Não acreditam? Então vou-vos contar esta estória, absolutamente verdadeira, se aceitarmos que os sonhos se podem concretizar e que nada acontece por acaso.

Jodie era uma rapariga nascida no continente africano, mais especificamente num país da África subsariana, que muito cedo foi levada de regresso à pátria dos seus pais, fugindo de uma suposta guerra que afinal iria acontecer mesmo. Assim, de africana passou a provinciana de terra pequena que embora, geograficamente perto da capital, ficava mesmo longe, por falta de meios de transporte.

Não se lembrando da primeira infância, foi vivendo o seu dia a dia, num lugar de horizonte limitados, mas cumprindo o que se esperava dela. No entanto, à medida que ia crescendo, os sonhos de vastidão e a memória dos ventos quentes na sua pele iam-lhe dando a sensação de que não pertencia ali. Chegou a pensar até que poderia ter sido adotada, mas cedo descartou essa ideia, pelas parecenças que foi encontrando com os seus irmãos.

Começou então a sonhar acordada, ajudada pelas estórias dos livros que ia lendo, uns de aventura, outros ilustrados com a savana e os animais que nela habitam, lendo tudo e mais alguma coisa até que os apelos de sua mãe para que apagasse a luz faziam efeito. Esperava ansiosamente pela biblioteca da Gulbenkian que mensalmente visitava aquela localidade, trazendo mais livros com estórias maravilhosas por descobrir e vivenciar. Passou a gostar do que era diferente, do inusitado, da surpresa, do mistério. Ouvia os sons do mato, que recriava em brincadeiras, em que as suas bonecas eram sempre Jane, de saias regadas e cabelos desgrenhados. Saía de casa para jogar ao berlinde ou à carica, subia às árvores com os rapazes e saltava à corda com as amigas. Só ao final da tarde, ouvia o eco do seu nome e então sabia que era hora de recolher, jantar e dormir. No dia seguinte, mais escola, mais leituras e muitas brincadeiras. Era feliz, mas não completamente..

A terra pequena, mexericosa, em que a normalidade era imposta como destino, começou a provocar-lhe sérias alergias e cedo percebeu que só estudando escaparia ao que estava predestinado. Quanto mais estudava, mais percebia a tendência para as leituras, para as línguas, para o abstrato. Números não lhe diziam nada a não ser para lhe preencherem as estórias que criava na sua cabeça. O problema da torneira e do tanque, acabava invariavelmente com a água a sair do tanque, a inundar a varanda e a escorrer para casa do vizinho que quase nunca estava porque viajava bastante. Então e o resultado do problema, hein? Quantas horas demorava a encher o tanque? Nunca sabia…. nem percebia qual era o interesse dessa pergunta. Perdia-se em conjecturas e a professora acabava sempre por pô-la de castigo.

 

Agora, ao final da tarde, lembrava-se dessa infância e das ausências que a vida lhe trouxera. Desciam, como o sol no horizonte, lentamente, primeiro em tons suaves, depois tornando tudo mais escuro, mais pesado, mais doloroso. O frenesim terminava, o ruído interno sossegava e as urgências deixavam de o ser. Então parava, ficava a olhar pela janela o entardecer, com o coração cada vez mais apertado e as memórias mais nítidas. Eram os sons, a voz, o riso, os miados, o tom desconcertante das respostas, o pelo macio que gostava de acariciar, o abraço forte e protetor. Mas também aquele ar desengonçado, prenúncio daquele desconforto. Eram várias as ausências, todas definitivas, e irremediáveis.

Sentia o coração pesado de tal forma que o corpo caia ligeiramente para a frente o que a fazia coxear um pouco. Sentava-se e percorria imagens no pequeno ecrã sem que estas aligeirassem o peso no seu peito. Talvez por isso a tensão arterial tenha aumentado. Acabava por adormecer, invariavelmente, todas as noites no sofá e quando acordava o peso ainda lá estava e a memória das palavras, dos toques e dos miados também. Cambaleava para a cama, automaticamente, sem nada que a pudesse distrair ou aliviar. As ausências tinham vindo para ficar e isso era um osso duro de roer e uma ferida aberta que não sarava.

Muitas vezes, parava, absorta, a olhar através do vidro a baia que, durante o dia, era ora verde ora azul conforme a sombra das nuvens. Agora, já quase de noite, era uma imensa massa escura, ainda com laivos alaranjados, denunciando o glorioso pôr do sol. Quanta beleza pode a tristeza aguentar? Os olhos marejaram neste pensamento e tentou não se desfazer em lágrimas. Olhos vermelhos e nariz a fungar não condizem com saídas para jantar, mesmo com amigos. É suposto estares bem disposta. Se já sabes que és má companhia, que não podes alegrar e fazer rir os outros então é melhor ficares em casa. Mas não lhe apetecia ficar em casa, sozinha com as suas sombras mais uma vez, mais uma noite….Por isso, fez um esforço, respirou fundo, colocou a mala a tira-colo, pôs um casaquinho pelas costas, certificou-se que tinha o telemóvel e as chaves de casa e do carro na carteira e saiu.

O grupo de amigos era bastante heterogéneo. Havia de tudo, direita, esquerda, hetero e homossexuais, académicos, quadros superiores de empresas, empresários, introvertidos, extrovertidos, bem e mal na vida. Individualmente, alguns eram um pouco insuportáveis, mas em grupo eram muito divertidos e as horas passavam sem que as sombras das ausências aparecessem para a atormentar. Por isso, mais importante do que concordar com tudo o que se dizia, era a gargalhada que se esperava, o non-sense de tudo aquilo. Nada era discutido ou conversado em detalhe, com profundidade, como aliás seria de esperar num grupo grande e diverso. Mas nem mesmo quando se encontrava a dois ou a três, como era o caso deste jantar, essa conversa de encontro se processava. Era sempre tudo pela rama. Para Marta estava bem assim. Era a única forma de não ter que partilhar o seu sofrimento e de fazer passar o tempo. Quanto menos se falasse a sério, melhor …. Bebeu, riu a bom rir das parvoíces sem pretensão como se fosse outra pessoa, como se ainda fosse uma pessoa sem ausências, quando tudo era certo, simples, intenso e sem dor.

Lembrava-se ainda bem desse tempo em que tudo parecia fluir de acordo com um plano que não se lembrava de ter feito. Era como seguir um guião, sem realizador ou encenador e cujo guionista desconhecia completamente. Agora, quando olhava para trás, entendia que tudo o que tinha desejado na vida acabara por acontecer.

Quando ainda miúda, num daqueles dias sombrios em que fechada no seu quarto ouvia os pais discutirem mais uma vez. Já não se lembrava ao certo do que diziam, nem quais os motivos específicos da discussão, para além da minha mãe pensar que o meu pai não era bom trabalhador e era um banana, porque não se opunha ao meu avô. Recorda-se de sentir que aquele não era um bom ambiente, que aquilo não estava certo e que ela não iria fazer o mesmo quando fosse adulta. Também naquela altura, olhava pela janela para ver a calçada irregular e íngreme que descia para a fonte. Gostava daquele enquadramento, sobre tudo ao pôr do sol que dava uma tonalidade luminosa aos campos verdes e trabalhados que o horizonte lhe trazia. Ficava horas a divagar, talvez a traçar o plano de que agora não se lembrava de ter feito. Voltava a si e os gritos continuavam parecendo, aos seus olhos de criança, intermináveis e agulhas que picavam em todo o corpo. No entanto, nem pai nem mãe, se apercebiam que ao lutarem entre si, também lutavam dentro dela. Talvez as primeiras sombras a instalarem-se no seu coração tenham começado aqui, no aperto que sentia, na desavença desgovernada, nos berros constantes, no medo que como luminosidade na frincha da janela entrara sem ser convidada.

Aquela divisão, a mais pequena da casa, repleta de livros de ficção científica colecionador pelo meu pai que era um leitor, dava-lhe o conforto que precisava naquelas ocasiões. Era mesmo pequena a salinha da costura, como a minha mãe lhe chamava. Quase não tinha móveis à excepção de uma estante que viera de África, numa madeira muito escura, e a máquina de costura. Para Marta, aquela máquina era simpática porque se transformava numa secretária onde quando a mãe não costurava ela podia fazer os trabalhos de casa e olhar pela janela, para a rua de pedra que desaguava em campos verdes que se perdiam de vista. Teve sérias dificuldades na matemática, mas lá acabou por, a muito custo e alguma intervenção divina,  sair dessa tão árida área de formação geral e enveredar pelas humanidades.

A capital acabou por ser tornar o seu destino e a universidade o seu dia a dia. Durante algum tempo parecia até que as luzes da capital lhe ofuscavam a sede da vastidão e as saudades do vento quente na pele, mas Jodie sabia que era apenas uma questão de tempo. Não sabia como, nem quando, mas tinha a certeza que o seu destino mais próximo seria o continente africano. A universidade deu-lhe um toque de cosmopolitismo, de descoberta e de cultura que foi atrofiando a província que nela resistia. Entre os últimos anos do liceu e os primeiros anos da experiência universitária, tinha conhecido outras paragens. Aterrara em Londres, uma cidade escura e enevoada, um pouco por força das circuntâncias políticas do seu país. Não o desejara, mas também não renunciou à hipótese de viver no país de sua Majestade quando a oportunidade surgiu. Lembrou-se que se afastava, cada vez mais, do seu sonho imaginado enquanto criança, agora desfalecendo sob um céu cinzento e chuvoso. Mas, lá está, o desconhecido, a aventura, o desafio de uma nova experiência foi superior ao sonho. Tinha que crescer, endurecer, ver mundo, perceber de onde vinha e para onde queria ir e isso só seria possível fazer-se fora do conforto familiar. (Continua)