O Perfeito Búzio
Ontem, o dia terminou de forma inusitada, a voltar, já de noite, ao Marítimo, onde as emoções tinham começado logo pela manhã. Ainda cedo, passeámos na maré vazia, apanhámos conchas, vimos pequenos seres nas poças que a maré formara, sempre de olho nos barquinhos que velejavam na baía e no J. que, apesar de febril, corria pela praia como se nada fosse. Uma vela deslizava, sozinha, para o meio da baía. Imaginando que poderia ser o Ab., como vim a confirmar mais tarde, o coração bateu mais forte. Havia algo de corajoso e, ao mesmo tempo, de arriscado, naquele velejar quase solitário, destemido.
Depois de um almoço em andamento, saímos da cidade para ir ver o An. Desafiando as leis da física, subia e descia de jipe, íngremes morros de terra vermelha que se desfaziam em areia a cada passagem das quatro rodas. O coração mais pequeno, batia mais forte na perícia, destreza e coragem de quem, afinal, tinha nascido para aquilo. Crianças penduradas nas arribas, aplaudiam aquela animação que viera povoar as suas brincadeiras de rua.
Ao final da tarde, ao chegar a casa, feliz por mais um dia cheio de emoções, arrumando as tralhas, descobri o perfeito búzio, que a C. encontrara na maré vazia e me oferecera para aumentar “a coleção das conchas da avó”, Coloquei-o em cima da banca para mais tarde lavar e arrumar. Sentei-me na sala, preparando-me para bezerrar o serão, quando ouvi um estrondo de qualquer coisa a cair. Não liguei, pois quem vive com um gato sabe que barulhos estranhos estão sempre a acontecer. Mas, depois de ter recolocado o búzio na banca e de o Tosta estar esparramado no sofá ao meu lado, o barulho repetiu-se. Percebi, então, que outra coisa tinha que explicar o sucedido. Fui ver e detetei umas patinhas de caranguejo escondido na concha que, naquela manhã, fizera do perfeito búzio a sua casa, sem suspeitar que nesse dia iria a Marraquene, sentiria o sufoco de um saco, no interior de um carro exposto ao sol, aparentemente, protegido dentro de um perfeito búzio. Olhei para o búzio, espreitei novamente o pequeno caranguejo que se encolhia cada vez mais. Olhei para mim própria e sabendo que não iria conseguir suportar a imagem de um caranguejo agonizando dentro do perfeito búzio, viajei até ao Marítimo, onde recoloquei o perfeito búzio e o seu inquilino nas areias da baía, no mesmo lugar de onde saíra naquela manhã.
De regresso novamente a casa, desculpei para mim própria o inusitado desta viagem, ao olhos de outros, com a defesa da vida selvagem, sabendo, desde sempre, que não poderia ter feito outra coisa. Por momentos, imaginei o que o pobre caranguejo estaria a pensar e a sentir e na justificação que ele poderia arranjar para o que lhe sucedera. Enfim, coisas que só acontecem a quem vive perto da praia.
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