Estória sem fim

Published on January 16, 2026 at 1:53 PM

Nos anos 70, alguém me contou que uma sua conhecida, chamemos-lhe Guida, se apaixonara por um colega, um bonito rapaz, de origem marroquina. Que coisa extraordinária, pensei. Logo ali, jovem que era e dada a muitas fantasias,  me pus a imaginar cores vibrantes, medinas labirínticas, tendas beduínas no deserto, camelos e quejandos. No entanto, o marroquino, chamemos-lhe Amir, vivia em Portugal há muitos anos e, segundo a fonte da estória, de marroquino tinha muito pouco,  apenas a origem. Como imaginam, a estória enfraqueceu, o deserto desapareceu e as tendas transformaram-se num apartamento algures em Lisboa. E a coisa ficou por ali.

Algum tempo depois, quando já não havia memória desta conversa, eis que um pequeno pormenor voltou a lançar condimentos àquela situação já erradamente classificada como desenxabida. Então, aquela paixão, transformara-se em casamento e dera ao mundo uma nova vida. O casal decidira, algum tempo depois, mudar-se para Marrocos com a criança recém nascida. Ora, este facto pareceu-me verdadeiramente inovador pois, na altura, não se ouvia falar muito de Marrocos e muito menos de pessoas que quisessem mudar-se para Merzouga, Zagora ou Marraquexe  para lá viverem com uma criança ainda pequena. Fiz um esforço para retrair este pensamento, pois em Marrocos também nasciam e viviam crianças, perfeitamente felizes e saudáveis, e, afinal, era a origem do pai da criança. E assim, neste esforço para normalizar o que à partida parecia insólito, retirei, talvez propositadamente, o condimento à estória. E mais uma vez, a estória ficou por ali.

Já não me lembro se muito ou pouco tempo depois, soube que a Guida, afinal, queria voltar, mas não conseguia. Ninguém, nem os pais, sabiam exatamente onde ela estava e ao que constava, a família do Amir obrigava-a a ficar em casa,  não a deixando contactar com ninguém. Os avós paternos queriam cumprir a tradição e entendiam que cabia ao pai  a educação da criança e a transmissão da religião e dos costumes e à mãe o cuidado doméstico. Ou seja,  o Amir e a Guida haviam sido obrigados a seguir a tradição, ela a usar o hijab e ele a jelaba e a desempenharem os papéis tradicionais. Neste ponto , já na altura notei que a estória teria alguma incongruência, pois se estava incontactável como saberiam que, não só não deixavam a Guida voltar, mas todos os pormenores daquela vestimenta tradição. A fonte da estória também não soube explicar e aí,  passou-me temporariamente pela cabeça que, talvez, tudo aquilo não passasse de uma estória imaginada que a minha conhecida se entretinha a tecer para se deliciar com a minha crendice.

Estas foram as últimas informações que tive. A vida deu muitas voltas e com os conhecidos de então perderam-se os contactos. Hoje, penso algumas vezes nesta estória e se teria ou não acontecido. A ser verdadeira, o que terá acontecido com a Guida e o Amir? Terá o amor vencido e proporcionado a aceitação e a integração da Guida na cultura marroquina? Ou terá a Guida desenvolvido uma recusa de toda aquela tradição que, na verdade lhe era estranha? Como se terá desenvolvido esta estória? E que adulto é hoje o filho ou filha da Guida e do Amir? A não ser verdadeira, o que terá levado a minha conhecida a tecer esta estória? Claro que tentar responder a qualquer destas questões levar-nos-ia a outras estórias.

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