Prenda

Published on May 17, 2026 at 2:45 PM

Com os sonhos ainda frescos na penumbra do quarto, ouvi um restolhar vindo da varanda. Um par de rolas apregoava a manhã e o sol nascente, pensei. Levantei-me mais calmamente do que é costume, para não assustar as visitas, e quedei-me a observá-las. Os pássaros encantam-me na sua liberdade total , na penugem magnífica que os protege, nas suas histórias brava e heróicas de progenitores. Acabaram por voar como sempre fazem. E eu abri finalmente as cortinas de par em par e a porta que dá para a varanda.

Reparei num inusitado objeto pousado no parapeito. Incrédula, percebi o que era. Ainda quente e abandonado, um pequeno ovo fora colocado cuidadosamente no cimento frio de forma a não cair e a estatelar-se no chão seis andares mais tarde. Atónita pelo inusitado da situação, fiquei petrificada a olhar aquela semente e a aflição começou a crescer. E agora o que fazer? Por que razão a progenitora havia abandonado o seu ovo? Lembrei-me, então, que tinha um ninho que havia apanhado no chão algum tempo atrás. Fui buscá-lo, coloquei o ovo lá dentro, tapei-o com algumas das inúmeras penas que inundam a minha casa e deixei-o na varanda, esperando que a rola-mãe pudesse perceber a minha ajuda. Mas claro que a mãe já há muito havia percebido que não poderia chocar aquele ovo e tanto quanto sei, não voltou.

Foram os meus maternos pensamentos que me impediram de perceber que este fora apenas um presente, um ovo para dar cor ao meu ninho e não um ovo abandonado à sua sorte. Agora, todos os dias quando vou à varanda agradeço a todas as rolas que voam à volta minha varanda, na esperança que alguma delas entenda o meu profundo agradecimento.